CONSCIÊNCIA ECOLÓGICA E AUTORITARISMO NO COTIDIANO

Por Kusum Toledo*

Dia desses me perguntava por que seríamos assim - adultos, adolescentes e crianças -, tão intolerantes, mandões, autoritários. Comportamento aprendido, evidente. Quem sabe já até no dna, cultura & genética historicamente amalgamadas. 

Que história é essa assim tão forte, de onde a fonte dessa prática? Que cotidiano é esse, com toda essa força? O que estamos a repetir? Por obra e graça de quem (s), e de quê (s) nos construímos sem respeito pelos espaços de cada um, sem consciência mínima do coletivo; e mais, sem auto-consciência e sequer conhecimento do espaço compartido? Por que essa necessidade de poder sobre o espaço do outro? 

Um outro dia me perguntava: por que, amando tanto as pessoas, estou cada vez mais com as árvores? Por que tão difícil o exercício da convivência? Por que assim complicado, quase inviabilizadas, as interações humanas? 

Na relação com as árvores, eu as busco e as encontro. Dou-lhes meu encantamento, elas me dão seus cheiros. Vejo suas belezas, elas me retornam frutos doces. Respiro oxigênio (que elas produzem), e elas o gás carbônico (que eu produzo). Precisamos umas da outras e eu não quero vir a ser um vegetal, tanto quanto elas não desejam vir a ser humanos. Eu não as desejo transformadas em mim, e elas não me querem só se sua igual.

A propósito, você gosta da rosa porque ela é igual à margarida?

Tempos atrás, em pesquisa de campo, conheci o miu-miu. O miu-miu é um capim venenoso que se ingerido pelo gado o petrifica e mata. Brota sozinho o miu-miu, em terras maltratadas, exploradas à exaustão. Terras exauridas pelo uso predatório, secam. E em torno delas, seca a vida. 

O corpo humano, maltratado, adoece. A Natureza, maltratada, adoece. A doença, assim como a dor, avisa que há algo errado, indica que alguma coisa urge ser diferente. 

Numa região seca, igualmente serão secas as plantas, os bichos, as pessoas.  Por outro lado, na terra bem tratada brota até alfafa, sozinha. E nas pessoas bem nutridas - em todos os sentidos - o bom humor é uma característica espontânea, natural. Na terra correm os rios, nas plantas a seiva, nos animais o sangue. Esvaziados da energia vital nossos corpos retornam a sais minerais, terra, sejamos plantas, bichos ou gente. 

Somos, cada um e todos, parte de um único e grande organismo. Microcosmos. Há uma aprendizagem de respeito mútuo, de harmonia, de sinalização de caminhos se captamos a vida em seus movimentos. Em nós e em torno de nós: a observação do próprio ritmo, o exercício da paciência, a descoberta do limite, sua superação. As mudanças. A identificação do próprio bem e mal estares. A experiência de ser totalmente mixirica, profundamente jacaré. Ser profundamente.  

A experiência do diferente. 

A propósito, você gosta da rosa porque ela é igual à margarida? 

Brincando com uma caixa de fósforos, a criança a transforma ilimitadamente:  uma hora a caixa é trem, outra avião, de repente um tigre feroz ou um comando em ação. Sob sua ordem, ao comando de sua vontade, ao impulso da sua imaginação. Ela manda, ela controla, ela domina. Com as letras e com as palavras fazemos o mesmo. Operando joysticks, gamepads e controles remotos, igualmente alteramos uma realidade quase que exclusivamente ao comando da própria vontade. Experiências importantes, sem dúvida. Das melhores para o contato com nossa capacidade criadora, com o infinito e indomável espaço da nossa realidade imaginária, nossa força e poder.  

Só que o que aí se estabelece são relações de dominação. E só isso, ou o predomínio massivo disso, exacerba e alucina. Insaniza. As referências se estreitam, a percepção do eu e do outro é deformada, o ser em relação não se constrói. É até impedido, uma vez que a reciprocidade não acontece. 

Agora, independente da minha vontade o gato mia, o mato cresce, em julho/agosto florescem os ipês na Praça Tiradentes, meu filho faz xixi na cama, e o calor das mãos do meu amigo me enche de ternura e desejo. Como tudo que é vivo, natural, temos um ritmo, uma necessidade, e uma tarefa. Para sermos plenamente carecemos escuta. Carecemos olhar. Carecemos toque. Gente bicho planta, carecemos cuidado carecemos troca carecemos liberdade.  

Com a vida, o autoritarismo é incompatível. 

 

*Texto de 1988, parte de um movimento particular da autora por relações mais leves entre gente, bicho e planta.